ponto final

Aquele deveria ser só mais um domingo como qualquer outro, mas as coisas ficaram diferentes quando recebi sua mensagem já no fim da tarde.

Fazia tanto tempo desde que havíamos nos falado pela última vez e, embora eu ainda visse suas atualizações no Instagram, não pensei que algumas poucas palavras pudessem mexer comigo daquela maneira.

Fiquei ansiosa, admito. Mas não de um jeito exatamente eufórico e feliz.

Olhei para as paredes do meu apartamento em busca de um norte, de uma resposta, mas tudo o que encontrei foram motivos para sair dali.

Peguei meu casaco, bolsa e calcei sapatos confortáveis. Decidi ir andando até minha cafeteria favorita. Seriam quase 15 minutos a pé até poder apreciar meu tão amado cappuccino tradicional, coberto pelo melhor chantili que já havia experimentado na vida.

Sei que muita gente tem medo da própria companhia, mas eu não. Desde muito cedo aprendi que eu sou, sempre fui e sempre serei meu próprio lar.

Me levar pra sair, no entanto, foi um hábito que adotei depois de grande.

Por conta dele, inclusive.

Eu me apeguei. Por anos. Desde que estávamos no colégio, comecei a colecionar memórias, sentimentos e ilusões. A gente que é meio melodramático tem a péssima mania de idealizar tudo, e de se apaixonar por aquilo o que criamos.

Mas como o mundo dá voltas, cedo ou tarde você vê a realidade e percebe que precisa andar pra frente.

– Que frio – pensei alto enquanto me arrependia por não ter escolhido um casaco mais grosso.

O inverno havia começado há pouco tempo, e justamente naquele dia só serviu como mais uma lembrança do meu romance caótico.

Tentei conter um riso cínico, mas acabou escapando quando me dei conta de que, ironicamente, fora também num domingo de inverno que tudo, absolutamente tudo, mudou entre nós.

Por que aquele infeliz estava me mandando mensagem? Era isso o que eu me questionava incessantemente, tentando focar na vida que acontecia ao meu redor ao invés de me preocupar com alguém que nunca, jamais, me valorizou por igual.

Qual é, só podia ser brincadeira.

Ele sabia o que eu sentia naquela época. Sabia o que representava na minha vida. Sempre soube, porque nunca gostei de deixar ninguém no escuro quando o assunto é relacionamento.

E, poxa, a gente se dava bem de um jeito surreal.

Porém, não sei. Talvez fosse, de fato, só coisa da minha imaginação.

Talvez eu tenha me agarrado demais a essa ideia de energia, almas gêmeas, reencontro cármico, ou qualquer coisa assim. E eu, honestamente, não desejava cometer o mesmo erro de novo – ainda que minha cabeça insistisse em indagar o óbvio.

Peguei o celular da bolsa e, pela milésima vez, abri sua conversa.

E aí! Tudo bem?
Tô na sua cidade.

Ele não havia dito muito. Nem me chamado pra sair, na real.

Como sempre, não tinha tomado nenhuma atitude. Era sempre isso. Deixava a isca na esperança de me pescar. E de fato pescou. Sucessivas vezes. Eu seria muito idiota se topasse me encontrar com ele de novo, por mais legais que fossem nossos encontros. Por mais que nossa amizade nunca tivesse se rompido oficialmente.

Até porque ninguém nunca fez questão de romper nada. Menos ainda de começar.

Faltava pouco para chegar ao meu destino. A brisa estava cada vez mais cortante, então acelerei os passos. O pouco esforço que fiz foi suficiente para afastar aqueles pensamentos por alguns minutos.

Carros. Buzinas. Pessoas.

Luzes.

Morar na cidade grande não é fácil, mas me mantinha acesa por muito mais tempo do que quando eu ainda estava no interior. E era sempre bom poder levar presentes legais para a família quando decidia passar o fim de semana na casa dos meus pais.

De longe, avistei uma xícara iluminada. Corri mais um pouco, finalmente completando a missão.

Empurrei a grande porta de vidro e o aroma de café me acertou em cheio. Lá dentro estava mais quentinho. Segui até uma mesa no canto, tirando meu casaco e abrindo o cardápio apenas por tradição.

Eu já sabia o que queria.

Acho que, no fundo, todos nós sabemos o que queremos.

Fechei meus olhos por um breve momento, curtindo a melodia que tocava para deixar o ambiente mais aconchegante. Casais e alguns pequenos grupos de amigas conversavam e riam nas mesas ao meu lado. Tentei prestar atenção, mas também tentei organizar as ideias que vagavam pela minha mente.

Tudo tinha corrido muito bem nos dois primeiros dias daquela viagem insana. Até as 23h59 de sábado, nós com certeza teríamos sido o casal do século.

Porém, quando acordei no dia seguinte, preocupada por ter dormido demais e perdido o trem, não encontrei conforto em seu olhar. Nem felicidade por podermos ficar juntos algumas horas a mais. Nem nada próximo disso.

Ele estava distante, preso ao seu celular.

Recebera um convite para uma festinha com seus amigos endinheirados, e como eu só partiria depois do almoço e não tinha onde ficar, acabei indo com ele – quase como uma irmã mais nova e inconveniente.

Outra risada acabou me escapando, mas dessa vez não era cinismo. Eu tinha sido tão boba por tanto tempo e, agora, por conta de algumas palavras certamente digitadas às pressas, lá estava eu surtando em vão, e até quem sabe considerando ser feita de boba mais uma vez.

Minha memória foi reconstruindo tudo pouco a pouco. Era tão nítido. Naquele dia ele não me encarou direito, e suas palavras, cheias de entusiasmo e calor se perderam com o nascer do sol, deixando muito claro que sempre fomos mundos distantes.

Não houve beijo de despedida. Nem abraço. Nem muita consideração para saber se eu tinha chegado bem. Era quase como se aquele fim de semana não tivesse existido.

Mas, para o azar dele, existira sim. E me ensinara muito.

– Olá! Você já quer pedir? – uma das atendentes apareceu de repente, me tirando dos meus devaneios por alguns instantes.

– Ah, sim! Vou querer o número três do cardápio, por favor.

Enquanto a moça anotava meu pedido em seu tablet, catei novamente o celular e abri a conversa sentindo as mãos trêmulas. Respirei fundo antes de digitar e, com a convicção de estar, pela primeira vez, agindo certo com relação ao que tivemos, enviei.

Enviei nosso ponto final.


Esse texto foi escrito para o Sete Oitavas, projeto de escrita criativa do qual faço parte junto com mais dois amigos. Caso queira conhecer e ler mais textos incríveis, é só clicar aqui. ♥

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🍜  Nyah Vandal

recíproco

Wattapad

Um dia desses, não faz muito tempo, ouvi alguém dizer que “o cara certo não foge e nem some”, que ele “não inventa desculpas”. E… é, eu concordo plenamente.

Quem gosta, fica.

Quem realmente faz questão, permanece ao seu lado, troca ideia e não te engana. Sou perita nesse lance de se envolver com o “cara errado”, e é por isso que hoje posso afirmar.

Eu sei que, muitas vezes, somos tentadas a optar pelo camarada que não está nem aí pra gente, que oferece algum tipo de “desafio” – e ok, eu entendo e concordo também que ninguém deve investir em um parceiro que não te mantenha acesa.

Mas estar acesa e viver em constante corda bamba são coisas completamente diferentes.

Um cara pra ser misterioso e instigante não precisa ser impossível e babaca. Todos temos nossos mistérios, malícias e segredos profundos. Todos nós carregamos nossas histórias.

Quem foi que disse que, pra ser o protagonista do seu romance, ele precisa agir de maneira fria e distante praticamente o tempo todo? Ou, ainda, que ele precisa ser o cara mais “solicitado” – entenda como quiser – da sua escola/faculdade/trabalho?

Por favor. Não temos tanto tempo assim.

O mundo gira, a vida passa, e esse garoto bonito que te atormenta do amanhecer ao anoitecer, que brinca com seu coração, joga com seus sentimentos, e que nunca aceita um convite seu pra nada, bom… ele não vai te dar o amor que você tanto procura e merece sentir.

Tem muita gente bacana por aí. Muitas pessoas a serem desvendadas.

Muitos segredos que valem a pena querer saber.

Então, pense bem. Reveja seus conceitos sobre “o cara certo, o cara ideal”, e só dê uma chance a quem também dá uma chance a você.

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🍜  Nyah Vandal

não se limite

olhe pra dentro e perceba o quão infinito você pode ser.

Este foi um ano intenso e extenso demais. Quando paro para pensar em certas coisas que vivi, fico verdadeiramente em dúvida se foi mesmo em 2019 ou no ano passado, porque não faz sentido eu ter passado por tantas situações em apenas 365 dias.

Mas foi exatamente isso que rolou.

Eu fiquei feliz, mas também chorei. Comemorei aqui e me frustrei ali. Criei expectativas, silenciei sentimentos e dei um basta em muitos dos meus dramas. Comi muita comida boa, mas também fiquei triste ao olhar a balança e não ver nenhum progresso. Conheci pessoas incríveis – e outras nem tanto. Fui, voltei, abandonei. Mudei de opinião tantas vezes, que tenho vergonha de admitir o quão volátil eu consigo ser.

Também postei assiduamente aqui no blog. Vi os gráficos de acesso subirem. Mas, infelizmente, e por motivos de força maior, não consegui evitar meus sumiços corriqueiros.

Contudo, agora resolvi dar as caras.

Há meses tenho sentido essa necessidade de escrever – e não só pra tirar a poeira.

Precisava escrever pra dizer que tudo isso, todas essas reviravoltas pessoais, profissionais e espirituais, me deixaram um pouco mais perto de entender quem eu tenho sido e quem eu de fato quero ser daqui pra frente – e acabou que o time foi perfeito, afinal, haveria momento mais apropriado do que esse para admitir esse tipo de coisa?

É óbvio que mudar não é fácil.

Todo mundo tá cansado de saber disso.

Mas se você não parar, nem que seja ao fim de um ano como esse, para refletir sobre suas atitudes e sobre o quão medíocre você está sendo, jamais terá a chance de refazer a rota e lutar para alcançar a vida que tanto sonha pra si mesmo.

E para 2020, visando uma rotina um pouco mais empolgante e cheia de energia positiva, o que desejo é seguir em frente, trabalhando com algo que me faça bem, estando com pessoas que me façam sentir certeza ao invés de dúvida, e me purificando de todas as escolhas ruins que me acompanharam até aqui.

Sorrir, acreditar, voar – e jamais me limitar.

E você? O que espera construir nessa nova fase?

~Happy New Year! ✨
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🍜 Nyah Vandal

 

dinheiro é tudo?

dinheiro é tudo?
Nunca fui uma pessoa irresponsável financeiramente falando. Desde muito nova, meus pais sempre foram bastante claros quanto à nossa situação socioeconômica, explicando sem rodeios como funcionava o mundo – ou, melhor dizendo, o nosso mundo.

Ter um irmão com quem tive que dividir grande parte das coisas também ajudou.

Aprender que nem sempre vamos ganhar o presente mais sensacional, porque a quantia disponível para as compras precisa ser meada, te faz perceber logo cedo a lógica do proletariado brasileiro.

E, bom… assim fui crescendo. Saudável e feliz, mesmo sem nunca ter ganhado a casinha da Barbie, e abusando da minha criatividade para montar lindos cômodos com caixas de papelão e isopor.

Agora, já uma jovem adulta, possuindo um total de 0 Barbies, mas diplomada, com emprego e dinheiro entrando na conta, posso afirmar que nada do que aprendi foi perdido, e que me sinto bastante estável e equilibrada com tudo o que compro.

Jamais gastei mais do que tinha, e nem nunca cogitei extrapolar o meu crédito.

Dívidas? Nenhuma.

Mas mesmo sem precisar, e devido à diversos fatores externos e internos a mim, às vezes ainda me pego priorizando o trabalho & a grana ao invés da minha saúde e bem-estar – e isso é um baita problemão, que apesar de tentar corrigir, vira e mexe falho miseravelmente, me fazendo sentir profundamente frustrada – afinal, e indo na direção oposta da opinião de muita gente por aí, dinheiro não é tudo.

Pode até comprar segurança, porém definitivamente não compra sua paz. Pode até te ajudar a viver momentos felizes, mas se a escuridão tiver tomado conta do seu coração, de nada vai adiantar ir às compras ou frequentar as melhores festas da cidade.

Dinheiro não é problema, é solução – esse é meu mantra diário, e tenho plena consciência de que minha gratidão à cada centavo no bolso é o que me faz viver uma vida tão próspera.

Contudo, passa da hora de todos nós compreendermos que dinheiro não deve estar acima de quem você realmente é, do que sonha e de quem você ama. Não crie pedestais para esses pedaços de papel; não o trate como seu mestre.

Porque ele não é.

Esteja você bem ou não financeiramente, jamais permita que o dinheiro controle a sua vida e suas escolhas, porque uma vez que a ganância, ainda que ingênua, dê as caras, será difícil se desprender das amarras que ela fará em você – e, quando perceber, já terá aberto mão de coisas demais.

Trabalhar é bom, e de fato nos enobrece. Mas trabalhar mais do que realmente precisa, ou no que não te faz bem por pura e total sede de grana te cega, faz perder o rumo e te destrói lentamente.

Falo isso pelo o que já vi e experienciei.

Então… por favor, só aproveitem a jornada.

Apreciem o arco-íris, sintam a grama verde e úmida sob seus pés, e se preocupem menos com o pote de ouro que há do outro lado disso tudo.

Não tenho dúvidas de que valerá muito mais a pena, e de que se sentirá muito mais satisfeito com tudo o que conquistou até aqui – e com tudo o que ainda há de conquistar.

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vingança ♡ catherine doyle

Eu não estou acreditando ainda, mas é real & oficial: esse é o primeiro post de resenha do blog – e eu não poderia estar mais feliz e satisfeita. Afinal, além de ser o tipo de post que tanto esperei fazer, é sobre um livro que, com toda certeza, me surpreendeu (de muitas maneiras).

Vi Vingança, de Catherine Doyle, nas prateleiras das Lojas Americanas do centro da minha cidade e, após ler a sinopse e um pouquinho das primeiras páginas, anotei o nome na minha wishlist, mas acabei adiando a compra por mais de meses.

“Para Sophie, aquele seria só mais um verão lento e abafado em Cedar Hill, fazendo um bico como garçonete no restaurante da família e passando o tempo com sua melhor amiga, Millie. Mas isso foi só até uma família se mudar para o casarão abandonado no fim da rua — cinco irmãos italianos, um mais gato que o anterior.
Sem conseguir resistir aos olhos cor de caramelo de Nicoli, Sophie acaba se apaixonando — e propositalmente ignorando os sinais de perigo que envolvem os misteriosos irmãos.”

 

No entanto, há algumas semaninhas, estava eu novamente nas Lojas Americanas, mas dessa vez na do shopping de onde moro, e na sessão abandonada de CDs e DVDs, havia também uma prateleira completamente bagunçada e repleta de livros esperando para serem levados pra casa.

De coração partido, fui vê-los de perto, e lá estava ele, um livro cor-de-rosa facilmente perceptível, com um desenho bonito e layout harmônicoquase implorando para ir embora comigo. Como sua capa estava um pouquinho rasgada, tive a certeza de que tão cedo alguém o tiraria dali – e foi o que faltou para eu comprar Vingança e mergulhar no mundo da máfia italiana.

É, isso mesmo: máfia italiana.

Quero dizer, eu imaginei sim que haveria um mistério rolando, mas definitivamente não esperava pela reviravolta na qual eu me vi imersa.

Sophie, como nossa protagonista prefere ser chamada – na real, seu nome é Persephone, e não sei de onde ela tirou que Sophie é melhor que Persephone. Ok que também acho Sophie lindo, mas seu nome verdadeiro é mais forte, intenso, e ela precisa urgentemente entender isso.

Enfim, prosseguindo…

Sophie é uma garota de 16 anos, que carrega nas costas um passado complicado envolvendo seu pai, que foi preso, e toda uma sucessão de melancolias e mudanças que vieram a partir disso. Seu círculo social foi praticamente destruído, e ela e sua mãe – que é uma costureira talentosíssima – têm que se mudar para uma casa menor em um bairro mais simples, enquanto ainda se recuperam de todo o trauma vivido.

Em meio a tudo isso, felizmente Sophie ainda tem sua melhor amiga, Millie, que foi uma das poucas pessoas que continuaram ao seu lado após o crime e prisão de seu pai. Elas trabalham juntas na lanchonete da família de Sophie, que é gerenciada pelo irmão do pai da garota, seu tio Jack – um cara que eu tive vontade de matar a todo instante durante a leitura, e ao fim principalmente.

No quesito romance, inicialmente temos a paixão de Nic, um dos cinco irmãos Priestly, e Sophie. Dentro do contexto da história, os dois acabam vivendo algo meio Romeu & Julieta, como bem propõe a própria sinopse do livro. Eu gosto disso? Até gosto, mas é tudo lento demais. E é por isso que, quando surge Luca, outro irmão bonitão e 10x mais bad boy que qualquer outro, as coisas mudam consideravelmente na minha perspectiva.

Quando vocês lerem, saberão do que estou falando.

Por que as mãos de Nic estão sempre tão machucadas? Por que ele sempre carrega consigo um canivete monogramado? E por que seu irmão mais velho, o arrogante e irritante Luca, quer proibir os dois de ficarem juntos?
Quando os segredos sombrios dos rapazes começam a vir à tona, Sophie precisa enfrentar dolorosas verdades em relação à própria família. De repente, ela se vê no meio de uma vendetta entre duas dinastias rivais: a família em que nasceu e a pela qual se apaixonou.

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No fim das contas, posso dizer que é um livro recheado de surpresas, que mescla muito bem o clichê com o inusitado; o mundo adolescente com o mundo do crime. Catherine consegue, com apenas 283 páginas, entregar uma obra rica em diversos detalhes, com personagens bem construídos e enrendo intrigante.

Sophie vai precisar escolher entre lealdade e paixão, e, quando o fizer, sangue vai rolar e corações serão partidos, porque, quando se trata de amor, a desonra pode ser uma questão de vida ou morte.

Pra quem já gosta de um romance adolescente, eu super indico, embora deva alertar que o romance não é tão presente como eu imaginei que seria. Já para quem tem resistência com histórias assim, recomendo que dê uma chance. É uma narrativa de muito potencial e com um desfecho que faz você querer a continuação – que inclusive existe, mas não encontrei uma versão oficial em português.

Se alguém por aí souber me informar melhor sobre isso, comenta aqui embaixo. 😉

Até o próximo post!

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espera

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Deixei o escritório tarde da noite, abraçando meu sobretudo marrom favorito e erguendo o pulso para conferir a hora.

O relógio ainda marcava três da tarde. Tinha travado.

Era o terceiro em menos de dois meses, e aquilo só reforçou o fato de que eu precisava parar de gastar meu dinheiro com tralhas e investir logo em um produto confiável e com alguns zeros à direita.

Ignorei a morte de mais um eletrônico meu e apressei os passos. Sem saber a hora exata, corria sérios riscos de perder o próximo ônibus – e, honestamente, essa era a última coisa que eu gostaria que acontecesse comigo naquela noite. Estava exausta e meus pés não aguentariam aqueles saltos por muito mais tempo.

Tec, tec, tec, tec.

Acelerando na medida do possível, cheguei ao ponto, que estava quase vazio –  felizmente, um rosto ou outro eram familiares. Assim, se eu houvesse perdido minha condução, pelo menos não passaria mais uma hora sozinha esperando pelo próximo ônibus.

Não que eu tivesse medo de algo. Seul sempre fora um lugar tranquilo nesse aspecto. A única coisa realmente caótica na cidade eram os carros que circulavam de lá pra cá.

Sentei ao lado de uma senhora, que lia um livro antigo e gasto, ajeitando os óculos sucessivas vezes. Parecia interessante, já que ela sequer piscava. Aquilo me fez lembrar de quando eu costumava ser mais ligada à literatura.

Engolia livros no Ensino Médio mais fácil do que comprimidos para dor de cabeça. Sempre fora encantada com a ideia de viver um romance fantasiosamente fascinante. Porém, é claro, nunca aconteceu.

Saltando de um relacionamento a outro, e sempre me envolvendo em situações complicadas e desgastantes demais, acabei engolindo, dessa vez, todo sonho que eu costumava cultivar dentro de mim a respeito de viver uma aventura amorosa que me tirasse o fôlego.

Estava muito claro pra mim que, nessa vida, eu tinha missões a cumprir, desafios a enfrentar e etapas a concretizar – menos a que dizia respeito ao amor romântico. Nesse aspecto, parecia fadada a nunca encontrar aquele alguém que de fato fizesse sentido em pertencer à minha vida, e vice-versa.

Mais algumas pessoas chegaram ao ponto de ônibus, sempre atentas ao fim da rua, aguardando o transporte que as levariam de volta ao conforto de suas casas. Eu fiz o mesmo, mas o que esperava ansiosa era um pouco diferente.

Não se tratava apenas do meu ônibus àquela altura do campeonato. O vazio de uma vida solitária disfarçada de solitude começou a me acertar em cheio – como vira e mexe era comum de acontecer.

Eu tinha tudo, e ao mesmo tempo não tinha nada. Havia visitado países, construído uma carreira, ganhando sucessivas promoções e aumentos salariais. Tinha enfim realizado meu sonho de morar na cidade mais moderna, agitada e empolgante de toda a Coreia do Sul. Era o ápice da minha vida.

Mas eu ainda estava lá, jogada na vala do descontentamento e frustração. Eu só queria ter alguém para abraçar e ser abraçada. Um beijo sem malícia, apenas zelo. Uma palavra de conforto pelas manhãs.

Alguém com quem eu pudesse dividir a vida.

Talvez meus pais estivessem certos: eu sempre escolhi demais. Seletiva ao extremo. Olhando mais uma vez para a senhora, que agora já havia fechado seu livro e o guardado dentro de uma de suas sacolas, comecei a me questionar se tinha valido a pena ser assim com tudo.

Quero dizer, minhas exigências tiveram total responsabilidade nas minhas conquistas profissionais. Meu padrão de vida era fruto da minha famosa seletividade, e por conta disso sempre fui muitíssimo grata.

Mas, ao mesmo tempo, aquele vazio e completa necessidade de viver uma dessas paixões de filmes hollywoodianos também eram consequência dessa minha postura detalhista demais.

Eu só queria que ele aparecesse, como um passe de mágica. Olharia em seus olhos e teria plena certeza da nossa ligação. Estaríamos juntos antes mesmo de estarmos.

Era por isso que eu esperava.

As pessoas ao meu redor começaram a se movimentar. Como se acordasse de um devaneio, mirei a rua ainda agitada. O nosso ônibus vinha rapidamente, desacelerando à medida em que se aproximava do nosso ponto.

Ele parou e nós entramos. Eu me ajeitei num dos bancos mais ao meio, escorando minha cabeça no vidro da janela. Seul parecia nunca dormir. Diziam que Nova York também não, mas ainda não tivera a chance de visitar.

Talvez eu devesse programar minha próxima viagem.

O ônibus se preparou para arrancar e sair logo dali. As pessoas carregavam o cansaço em seus rostos. A senhora, que estava um pouco mais à frente, tornou a tirar seu livro da sacola. Aquela devia ser uma trama e tanto.

Respirei fundo mais uma vez, certa de que continuaria trilhando minha jornada tal qual vinha fazendo nos últimos quase dez anos.

Mas então algo aconteceu.

Ouvimos uma voz desesperada, num coreano audível, pedindo que o ônibus o esperasse. O motorista pareceu irritado, porém assim o fez, freando a condução e abrindo a porta para que o novo passageiro pudesse embarcar.

Ele passou pela roleta, ajeitando seu casaco preto e a bolsa lateral, que pendia sobre um de seus ombros. Agradeceu, aparentemente sem graça, e caminhou pelo corredor estreito. Seu cabelo era escuro, a boca estava vermelha devido ao frio.

Ele olhou de um lado para o outro, observando onde se sentaria. Nenhum dos assentos estava completamente vazio, então de um jeito ou outro ele teria que ficar longe da janela.

Tentei não encarar mais. Ser estrangeira num país asiático já era uma tremenda complicação. Comer pessoas aleatórias com os olhos só tornaria tudo mais esquisito para mim.

Distraída, voltei a encarar a rua. O ônibus já tinha começado a se movimentar, pegando o ritmo dos outros veículos. Precisava arrumar meu quarto quando eu chegasse. E lavar minhas roupas. E ligar para meus pais, que provavelmente estariam almoçando àquela hora.

Com licença – foi o que a voz disse, me fazendo encarar a pessoa que tinha acabado de se juntar a mim. Era o cara atrasado.

O cara atrasado de cabelos escuros, casaco preto, boca vermelha e olhos perfeitamente traçados, que me encaravam com certa curiosidade – e ao mesmo tempo inquietação.

Meu coração acelerou tanto, que fiquei com medo de que pudessem ouvir. O sangue bombeava em meus ouvidos. Que sensação maluca era aquela?

E por que ele tinha se sentado justo ao meu lado, quando nos outros bancos havia apenas coreanos presentes? Quero dizer, não era isso que costumava rolar comigo. Os nativos pareciam correr dos estrangeiros, como se fôssemos alienígenas.

Mas ele escolheu se sentar ao meu lado.

— F-Fique à vontade! – respondi, e mesmo em meio a um gaguejo embaraçoso, tentei colocar em ação toda a cordialidade da minha terra verde e amarela.

Ele sorriu em resposta e agradeceu. Um sorriso bonito pra caramba, que só conseguiu me deixar ainda mais desconcertada e tímida. Aquele cara era diferente. A energia que ele emanava não tinha nada a ver com o que eu estava habituada.

De soslaio, e durante todo o caminho, nós nos encaramos. E digo nós com convicção, porque sempre fui esperta quanto a isso de perceber se as pessoas estavam ou não reparando em mim – ainda que fosse apenas pelo fato de eu ter vindo de outro país.

Pressionando uma mão contra a outra, prendi a respiração diversas vezes. O trajeto parecia ter se tornado mais longo do que o usual, enquanto o corpo dele esbarrava no meu de acordo com o movimento que o motorista fazia.

Era sutil, mas meu estômago congelava a cada curva.

Continuamos nos olhando disfarçadamente, até que ele pareceu reunir toda a coragem possível para virar um pouco mais o pescoço, deixando claro que ele queria olhar nos meus olhos. Fiz o mesmo em resposta.

— Me desculpe. Eu não costumo fazer isso. Mas, não sei, eu acho que te conheço – foi o que ele disse, baixinho, curioso e inquieto. Seu olhar estava preso ao meu, e eu podia sentir exatamente a mesma coisa, embora tivesse certeza de jamais tê-lo visto antes.

Pelo menos não nessa vida.

— Eu sinto o mesmo – foi o que consegui responder, e ele abriu mais uma vez aquele sorriso.

Era por isso que eu tinha esperado tanto.

 

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